poemas de André Pessôa
VER
Ver que a certeza é apenas vaga
No oceano da confusão é não ter
O dever de procurar o Bem
Seguindo os passos de alguém
Ver que a clareza é cega
Faísca do fogo de uma paixão
Provém da cura de uma ferida
Maior que o tempo de uma vida
Ver é dançar com os olhos
Sem compromissos
Brincar de onde ir
Não seguir submisso
A vontade é a prova de um arrepio
A cabeça assume tal desvio
Deixa fluir o vento no corpo
Que o pensamento se faz vivo, não morto.
(1991)
Quero fazer poesia assim
Amarela. laranja, roxa
Me meter nas tuas coxas
Dizer ao mundo que vim
Para namorar sua fantasia
Risco nomes no papel
Registro aquela nossa fantasia
Numa nuvem dourada no céu
Menina Bonita
Poema Rimado
Na frente a marmita
O banquete ao lado.
(1990)
O rio corre
A gente pára
Para onde vamos?
Filhos teremos?
O rio corre
Desce nos jardins
Surgem esperanças
Rosas amarelas
Há amor perfeito
Na flor que se abre no leito
Lírio que combina
Com meu sinal de pele
Perto do peito
O rio corre
Onde nascem asas
No pensamento
Como vai você?
O rio corre
Chuva fevereira
Amor de muito
Sol na Guanabara
Há amor assim
Que começa de cara.
(2000)
Arte do afeto
menina-coragem
a vida rara que espera
e sai da janela
se esguela
veja a si
conforme o ninho
transar vinhedo
ar de revolução
bandeira branca
atuar
em cantos
diversos
toques
risos
partos
prantos
até havermo-nos
nunca fartos
criadores.
Foi quando recebi o telefonema do amigo longe
que vi o amor em toda a parte
além de mim o sentimento e a coragem
sangue correndo no tempo em que falo
pouca coisa serve ao poeta mordido e ao poeta músico
criança que desenha o verso na parede da memória
na esquina virada pela pressa embebida
mentira é não querer profundo sem culpa
no mergulho-ato da escolha suprema
caminha-se viramundo devagar sem pedaços perdidos
regenerando a crista enquanto douram sóis
a cor local de malandro raro
rompe cascas e inventa modas
toma de si o que refaz e canta
o trovador da rosa talhada por Deus
foi quando recebi o telefonema do amigo longe
que vi o quão estou longe do que é perto
mesmo com a certeza de missões cumpridas
revela-se a sorte desenhada nos mitos do amor
(nov-93)
Um Dois
no limiar de um tempo
um pra dois é a razão de ser
eu dou um dois e tenho sede
diante da sorte
um pra dois sou muitos
único me anulo
sou um mulo
do um em dois
no um tem dois
no dois tem um
um pra dois
razão do ente
a minha razão doente
tem muitas razões
para dar um dois
e perdê-las depois
no fulgurante
mundo colorido
forte brilhante
onda de ser
(jun-89)
A poesia é mãe que me gera todo dia
A poesia é a mulher que me deito à noite
A poesia é a minha filha
Este poema um filho
Através dos versos
Que penso ou escrevo
Crio a poesia em mim.
(jan-97)
Serrania
Chove
Aqui dentro alegria
Move
Aqui dentro e fora
Flora flor na ribanceira
Sentir
Licenciosidade
Ócio da palavra absoluta
Verdade
(jun-99)
Estes versos são para você
Por onde erro sarrafo a rima
Bato no que me desanima
Sorriso amargo amarelo
Estes versos são para você
São versos de comer
Saboreie a letra enquanto sumo
Faça um suco do conteúdo
Segredo e medo que esboço
Impreciso prato de amor-palavra.
(março/94)
identidade
sou o poema
o oco das formas
anjo barroco
mito
minto
a ela idéia
tê-la
mentira
na idéia-tela
cinema
na lua cheia
ilumino o sentido
dos amantes
no breu
brinquedo e luz dos loucos
vivo
nas linhas tortas
escritas por Deus
e na linha certa infeliz
dos Diabos tortos.
manchete
Já não temos tanto tempo para poesia
O Rei cantou na igreja
Sem os habituais paparazzi
Os muros pichados
Monumentos
Que nada sabem nem onde
Melhor seria parar as máquinas
E todas as empresas de comunicação
Se limitarem a dar educação
Sem as ruínas das manchetes
Enquanto eu canto
Alguém estende a mão
Viro o rosto e me solto na canção
Sem dizer que sou teimoso
Minha voz gravada
Comprimida
É meu spray.
Seguranças quebram Canons
Yashicas
Pentaxes
O Rei se retira
Minha música consola
Meu templo é a vida
No céu de alma e pão.
página da SOMA - IÊ