A CULTURA POPULAR DE TRADIÇÕES ORAIS NA ESCOLA

  

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO DA DISCIPLINA INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DA EDUCAÇÃO

 

PROF. : JOSÉ SÉRGIO FONSECA DE CARVALHO

 

ALUNO:  RICARDO RIBEIRO DE MENDONÇA JR.

 

 


A cultura popular de tradições orais é o caminho viável para enfrentarmos a crise em que se encontra a nossa sociedade. Ela é o meio mais eficaz para se proporcionar uma educação voltada para a ética, cidadania e direitos humanos. Apesar da sua extrema riqueza, diversidade e utilidade, sofre de inúmeros preconceitos por toda a sociedade e está pouco presente nas escolas, justamente o lugar onde sua presença é imprescindível.

 

Para ARENDT, um dos motivos para a crise na educação do novo mundo é o abandono quase que total do passado dos alunos, esquecendo suas origens e os preparando para uma nova sociedade com novos valores, mas sem tradições. Ou seja, não se considera que tudo que é ensinado, por mais inovador que pareça, é velho sob o ponto de vista das gerações seguintes.

 

As nossas tradições são parte do incosciente coletivo do nosso povo, um bem de valor incalculável que pertence ao povo. São o elo de ligação mais forte com a nossa história, com os nossos antepassados e têm que ser preservadas.

 

CUNHA JR mostra a importância dos conceitos afrodescendência e africanidades brasileiras para enfrentarmos os preconceitos herdados de um passado histórico escravista. Na Europa o racismo é baseado na superioridade do branco, no Brasil, na inferioridade do negro (e do índio acrescento eu). Para derrubar os preconceitos que cercam as nossas tradições precisamos conhece-las. Assim saberemos da sua importância, poderemos admirá-las e repeitá-las.

 

            O que dificulta a continuidade de tradições e manifestações populares é o fato delas serem transmitidas de geração em geração pela vivência e participação, muitas vezes apenas oralmente. O jovem, influenciado pela mídia (televisão e rádio), às vezes perde o interesse, ou apenas transforma as tradições de acordo com as suas influências modernas, o que pode ser bom, desde que não descaracterize os elementos principais (como o ritmo, a estrutura narrativa e outros). Caso isso aconteça, pode ser catastrófico e resultar na extinção de boa parte da nossa cultura popular.

 

            Desta forma, muitas tradições ainda existem por causa de gerações mais velhas. Boa parte da cultura popular do país está nas mãos de pessoas com idade superior a sessenta anos. Muitas danças, canções, lendas, costumes ainda não registrados ou aprendidos por gerações mais novas irão se perder com a ida destas pessoas. Isto se torna assustador numa sociedade que está cada vez mais orientada mecanicamente.

 

FU-KIAU nos mostra o conceito Bantu a respeito dos Mûntu (seres humanos) que todos somos em oposição ao mundo orientado mecanicamente. Acredito que esta concepção é compartilhada pelas diferentes culturas de tradições orais que formam o povo brasileiro, no qual os afrodescentes formam uma grande parcela.

 

“No mundo orientado mecanicamente, o ser humano é meramente concebido como uma peça mecânica com valor decrescente. Dos dezoito aos vinte e cinco anos possui um heróico valor militar. Na realidade, este jovem entra numa missão terrorista de defender os interesses politicos e ideológicos daqueles que querem explorar sua juventude e inexperiência. Dos vinte e cinco aos cinquenta e cinco ele é categorizado como uma peça de alto valor no serviço de exploração. Depois disso, seu valor, não apenas como uma peça, mas como ser humano, decresce rapidamente; ele é posto de lado e classificado entre os ‘semelhante a carros usados’. Chega-se ao extremo de obriga-lo, nos seus setenta anos de idade, a deixar a sua própria casa para ir viver em asilos, o lugar para morrer.”

 

No mundo africano, e nas culturas de tradições orais acrescento eu, “o ser humano é visto como uma força, um fenômeno de veneração perpétua da concepção à morte – uma realidade que não pode ser destruída, ainda mais depois da morte, porque sua realidade física se torna realidade espiritualmente viva em palavras, ações, experiências, imagem, um invisível sol radiante.”

 

Como afirma HAMPATÉ BÂ, “aquilo que se aprende na escola ocidental, por mais útil que seja, nem sempre é vivido, enquanto o conhecimento herdado da tradição oral encarna-se na totalidade do ser. O ensinamento nas tradições orais não é sistemático, mas ligado às circustâncias da vida. A lição dada na ocasião de certo acontecimento ou experiência fica profundamente gravada na memória da criança. “

 

O principal aspecto apontado por POSTMAN responsável pelo desaparecimento da infância, onde a escola não mais protege a criança do mundo público, enquanto a prepara para a vida em público, é o livre acesso que as crianças têm à informação. Portanto, não existem mais segredos a serem desvendados quando se atingir uma certa idade. Na cultura de tradição oral isso não acontece, pois o aprendizado é gradual e só se aprende determinadas coisas no momento em que se está preparado para tal. O acesso é controlado pelo(s) mestre(s). “Para se tornar um mestre iniciado é necessário conhecer todas as palvras heradas e vivê-las. Pois existem coisas que não se explicam, mas que se experimentam e se vivem” (HAMPATÉ BÂ).

 

ARACY LOPES DA SILVA relata de forma brilhante como surgiu os preconceitos em relação aos povos de tradições orais, importante de ser incluído nesta discussão. Farei minhas algumas de suas palavras.

 

Durante o século XIX, com a expansão colonial européia pela África, Oceania e Polinésia, com as grandes expedições científicas na América do Sul por viajantes europeus, o mundo ocidental se deparou com povos nativos de tradições orais, com novas formas de ver e se relacionar com o mundo.

 

Contemporâneos às Revoluções Industrial e Francesa, ali estavam povos sem escritas, populações cujas verdades fundamentais, como as noções básicas sobre o homem, a natureza, o mundo sobre-natural, eram expressas através de mitos, rituais, impossíveis de serem tidos como verdades essenciais pelos colonizadores e intelectuais  da época e serem tidos como intermediários legítimos nas relações entre o homem e sua compreensão de sua situação no mundo, entre o homem e a natureza, entre homens e seus semelhantes.

 

            A primeira  reação destes dominadores ao se depararam com o infinito universo de tradições foi: isto que crêem ser religião, é magia, supertição; isto que crêem ser verdades são histórias infantis, próprias de mentes não evoluídas. Conclusão: povos que têm nos mitos suas verdades são povos em estado primitivo, sociedades paradas no tempo, representam a infância da humanidade e uma mente ainda não preparada ou treinada para o exercício da racionalidade plena que, esta sim, se expressa através da filosofia ou da ciência.

 

Haveria então, para o pensamento evolucionista, um momento em que a mente humana operava através de um pensamento mítico e mágico visto como rudimentar, a ser superado, em etapas sucessivas, até o desenvolvimento da filosofia e da ciência. Criou-se então a escala evolutiva “selvagens” – “civilizados”, sendo esta a autodenominação daqueles que têm o uso da palavra, hierarquizando e qualificando segundo seus próprios critérios as diferenças que lhes chamam atenção.

 

Concepções nacidas na Grécia Antiga servem-lhes de modelo absoluto, capaz de definir as etapas históricas de toda a humanidade. Com esta postura, declaram que há povos com ciência e há povos que ainda não desenvolveram sua racionalidade a ponto de se tornarem capazes de produção de História, Ciência e Filosofia. Os mitos são então definidos como narrativas falsas; só a ciência é vista como capaz de conduzir à descoberta da verdade.

 

Para mostrar a falsidade desta ideologia basta olharmos para o vasto conhecimento de ecologia e medicina que os índios da Amazônia possuem e que os homens “civilizados” roubam e se apropriam sem a mínima preocupação de ao menos citar a origem de tal nobre conhecimento. Só porque foram eles que os trouxeram para o mundo formal e sistemático da escrita.

 

Com o surgimento da história, filosofia e ciência como formas escritas de produção do conhecimento e do saber, sujeitas às regras lógicas, à crítica e ao rigor na construção da argumentação, caracterizou-se o domínio do logos em oposição ao mythos.

 

HAMPATÉ BÂ nos transmite as sábias palavras de Tierno Bokar Salif, grande mestre de Tijaniyya: “A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não o saber em si.”

 

Compartilho com ele a idéia de que o testemunho, seja escrito ou oral, no fim não é mais que testemunho humano. Antes de colocar seus pensamentos no papel o escritor ou o estudioso mantém um diálogo secreto consigo mesmo. Nada prova a priori que a escrita resulta em um relato da realidade mais fidedigno do que o testemunho oral transmitido de geração a geração. Cada partido ou nação “enxerga o meio-dia da porta da sua casa” (provérbio africano). Os documentos escritos nem sempre se mantiveram livres de falsificações ou alterações, como se verifica nas “Sagradas Escrituras”.

 

“O que se encontra por detrás do testemunho é o próprio valor do homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de transmissão da qual ele faz parte, a fidedignidade das memórias individual e coletiva e o valor atribuído à verdade em uma determinada sociedade. Em suma: a ligação entre o homem e a palavra.”

 

“Nas sociedades orais, não apenas a função da memória é mais desenvolvida, como a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá, o homem está ligado à palavra que profere. Está comprometido por ela. A coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra. Pouco a pouco a escrita vem substituindo a palavra falada, tornando-se a única prova e o único recurso; vemos a assinatura tornar-se o único compromisso reconhecido, enquanto o laço sagrado e profundo que unia homem à palavra desaparece progressivamente.”

 

É inquestionável o que nos revela ARACY LOPES DA SILVA: “todos os povos, apesar de suas diferenças nos modos de pensar , agir, viver, fazem uma única humanidade. Todo o homem, toda a humanidade se define como portadora e produtora de linguagem e cultura.”

 

“Há uma população, encontrada em todo globo, diversificada, que compartilha o fato de acreditar nos mitos e que os escolhe como forma privilegiada de pensar o mundo e expressar suas concepções; entendem que as narrativas míticas contam verdades. E não quaisquer verdades, mas grandes, importantes verdades, que todos precisam conhecer.”

 

“Nada garante que não haja racionalidade e verdade nos mitos por operarem com emoção e uma linguagem sensível. O mito é uma maneira de exercitar o pensamento e expressar idéias. Os mitos dizem algo importante, a ser levado a sério por todos que se interessam em conhecer um pouco mais sobre a alma humana.”

 

OAKESHOTT se preocupa em nos dizer que somos herdeiros das realizações humanas e discute a possibilidade do discernimento ser ensinado. PASSMORE discute a possibilidade e a importância de se ensinar a ser crítico. As tradições orais, como a Capoeira de Angola, o Bumba-meu-boi, o Jongo, as danças e músicas indígenas, fazem parte da nossa herança cultural, mas são pouco abordadas pela sociedade e suas instituções, em particular pelas escolas. O que se está perdendo é enorme, uma vez que tais tradições nos ensinam dicernimento e a sermos críticos, além de abordarem questões sociais, desenvolverem habilidades musicais, cordenação motora, sociabilidade, desenvolverem virtudes como paciência, cuidado com os mais novos, respeito e admiração pelos mais velhos, etc.

 

Realmente a crise na educação não se resume simplesmente em saber porque Joãozinho não sabe ler ou escrever, como disse ARENDT. São questões de ordem moral, ética e de valores humanos, de como lidamos com os nossos semelhantes, como cuidamos do meio ambiente. Valores estes presentes nas danças, músicas, mitos, lendas das nossas tradições orais. Tradições esquecidas e abandonadas.

 

 

REFERÊNCIAS OFERECIDAS NO CURSO

 

 

ARENDT, H. Entre o Passado e o Futuro. Capítulo 5: A crise na educação. São Paulo, Perspectiva, 1968 (1974?).

 

OAKESHOTT, M. Aprendizado e ensino. In: The concept of Education.. Org. R. S. Peters, Londres, Routledge, 1968. Tradução Helena Meidani e José Sérgio Carvalho.

 

PASSMORE, J. The Philosophy of Teaching. Caítulo 9 “Ensinando a ser crítico”. Londres, Routledge, 1968.

 

POSTMAN, N. O desaparecimento da infância. Capítulos 3, 5 e 6. Rio de Janeiro, Graphia, 1999.

 

 

 

OUTRAS REFERÊNCIAS

 

CUNHA JR., H. A História Africana e os Elementos Básicos para o seu Ensino. Em: Núcleo de Movimentos Sociais. Faculdade de Educação – UFC, Fortaleza, 1997.

 

CUNHA JR., H. Africanidades Brasileiras e Afrodescendências. Mimeográfo. Teresina – PI, 1996.

 

FU-KIAU, K. K. B. Self-healing power and therapy: Old teachings from Africa. Vantage Press, New York, 1991.

 

HAMPATÉ BÂ, A. A tradição viva. Capítulo 8 do Vol.1 de História Geral da África, Ed. Ática.

 

SILVA, A. L. da. Mito, razão, história e sociedade: interrelações nos universos socioculturais indígenas. Em: A TEMÁTICA INDÍGENA NA ESCOLA: NOVOS SUBSÍDIOS PARA PROFESSORES DE 1º E 2º GRAUS, Org. por Aracy Lopes da Silva e Luís D. B. Grupioni. Global Editora. MEC/MARI/UNESCO, 1998  

enviado por Mestre Cobrinha Mansa (FICA)


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