Um bom depoimento de sobre a guerra da opressao.

Folha de S. Paulo 11/12/2001
DEPOIMENTO
<http://www.uol.com.br/folha/mundo/ult94u34559.shl>

"Os que me espancaram tinham razão"

Jornalista relata agressão que sofreu de refugiados em povoado na
fronteira Afeganistão-Paquistão

ROBERT FISK
DO "THE INDEPENDENT", NO PAQUISTÃO

No começo, nós chegamos a trocar apertos de mãos. Nós dissemos:
"Salaam aleikum", algo como "Que a paz esteja com você". Logo
depois, começaram a ocorrer os primeiros problemas. Um garoto
tentou roubar minha mochila. Outro garoto tentou fazer o mesmo. Em
seguida, recebi um forte soco em minhas costas. Um jovem arrancou e
quebrou meus óculos, enquanto outras pessoas começaram atirar
pedras em meu rosto e em minha cabeça. Eu não podia ver direito o
que acontecia porque o sangue escorria da minha testa e inundava meus
olhos. Mesmo neste momento, eu entendi: não podia culpá-los pelo que
estavam fazendo. Realmente, se eu fosse um refugiado da região de Kila
Abdullah, próximo à fronteira entre Paquistão e Afeganistão, eu faria
exatamente o mesmo a Robert Fisk. Ou a qualquer outro ocidental que
aparecesse por ali.

Então, porque registrar meus poucos minutos de terror enquanto era
atacado perto à fronteira do Afeganistão, sangrando e chorando como
um animal, enquanto centenas _sejamos francos e digamos milhares_ de
civis inocentes estavam morrendo nos bombardeios norte-americanos;
enquanto a "Guerra da Civilização" estava carbonizando e mutilando os
pashtus que vivem em Candahar e destruindo suas casas porque o
"Bem" precisa vencer o "Mal"?

Muitos afegãos que viviam na pequena cidade estavam ali há anos, ou
haviam chegado _desesperados, famintos e lamentando a morte de
entes queridos_ há poucas semanas. É um péssimo lugar para o carro
quebrar. Era também um mau momento, já que a população estava
terminando de cumprir um dia inteiro de jejum pelo mês sagrado do
Ramadã. O que aconteceu conosco pode simbolizar o ódio, a fúria e a
hipocrisia dessa guerra imunda: um bando de miseráveis, jovens e
velhos, que encontraram em seu território um grupo de estrangeiros_que
para eles são inimigos_ e tentaram exterminar pelo menos um deles.

Muitos deles estavam horrorizados com o que viram na TV sobre os
massacres de Mazar-e-Shariff, onde prisioneiros foram mortos
enquanto estavam com as mãos algemadas nas costas. Um aldeão disse
a um dos motoristas que nos acompanhavam que ele havia assistido a
um vídeo em que dois agentes da CIA, identificados como Mike e
Dave, ameaçavam matar um prisioneiro ajoelhado na cadeia de Mazar-
e-Sharrif. Os afegãos que estavam nas ruas da cidade naquela
oportunidade provavelmente não tiveram acesso a algum estudo
_duvido até que esses homens tenham aprendido a ler_ mas não é
preciso ser letrado para reagir à morte de pessoas queridas mortas em
bombardeios. Um jovem, ao me ver, chegou a perguntar para meu
motorista, com total ingenuidade, "ele é o Bush?".

Devia ser por volta de 16h30 quando nós chegamos a Kila Abdullah, no
meio do caminho entre a cidade paquistanesa de Quetta e a cidade de
Chaman. Estávamos em quatro pessoas no carro: Amanullah, nosso
motorista, Fayyaz Ahmed, nosso tradutor, Justin Huggler, do jornal "The
Independent", que havia acabado de cobrir o massacre de Mazar-e-
Shariff, e eu.

Nós percebemos que algo estava errado quando o nosso carro parou
no meio de uma estreita e movimentada rua. Uma cortina de vapor
branco e espesso começou a se levantar do capô do jeep em que
estávamos. Um barulho terrível formado por uma mistura de buzinas de
carros, ônibus e caminhões e de gritos de puxadores de riquixás
reclamado do bloqueio que, involuntariamente, havíamos criado.

Nós quatro saímos do carro e o empurramos para perto da calçada,
para evitar que o trânsito ficasse ainda mais prejudicado. Eu resmunguei
alguma coisa com Justin sobre aquele ser um péssimo lugar para o carro
quebrar. Kila Abdullah é o lar de centena de refugiados afegãos, uma
massa de pessoas pobres e sem destino que a guerra produziu no
Paquistão.

Amanullah foi tentar encontrar outro carro. Poucas coisas são piores do
que enfrentar um multidão faminta, uma delas e enfrentas um multidão
faminta depois que anoitece. Quando percebemos que algumas pessoas
começaram a se aglomerar ao redor de nosso fumegante Jeep, Justin e
eu procuramos sorris amistosamente. Eu apertei as mãos de vários
deles. Talvez eu tenha pensado em George W. Bush e distribuido muitos
"Salaam aleikums". Eu sabia o que poderia acontecer se eu parasse de
sorrir.

A multidão foi crescendo, e sugeri a Justin que nos afastássemos do jipe
e andássemos para o meio da rua. Uma criança beliscou meu pulso, e
eu me convenci de era um acidente, um instante de desprezo infantil.
Então uma pedrinha passou por minha cabeça e bateu no ombro de
Justin. Ele se voltou para mim, com preocupação nos olhos, e recordo
que pensei: "Por favor, que seja apenas brincadeira". Então outro
menino tentou agarrar minha bolsa. Dentro dela estavam meu
passaporte, cartões de crédito, dinheiro, agenda, caderno de endereços
e telefones e celular. Puxei a bolsa de volta e a pendurei atravessada no
meu ombro. Justin e eu atravessamos a rua, e então alguém me deu um
soco nas costas.

Como se faz para sair de um sonho quando seus personagens de
repente ficam hostis? Vi um dos homens que nos apertara as mãos, todo
sorrisos. Mas ele não estava mais sorrindo. Alguns dos garotos menores
ainda estavam rindo, mas seus risos já não eram amigáveis. O
estrangeiro respeitado _o homem que, minutos atrás, repetia "salaam
aleikum" a torto e direito_ estava assustado, fugindo. Era o Ocidente
sendo humilhado. Justin estava sendo empurrado de um lado para o
outro. Então percebemos um motorista de ônibus que acenava para nós
de seu veículo, no meio da rua. Fayyaz, ainda ao lado do carro, não
entendia porque tínhamos nos afastado e não nos enxergava mais. Justin
alcançou o ônibus e subiu nele. No momento em que eu pus os pés no
degrau, três homens agarraram a alça de minha bolsa e me puxaram
para o chão. Justin me estendeu a mão, gritando "segure!". Segurei. 

Foi quando recebi o primeiro golpe forte na cabeça. Quase caí sob o
impacto, que deixou meus ouvidos zumbindo. Eu já esperava por isso,
mas não imaginara que seria tão doloroso e duro, nem tão imediato. A
mensagem era apavorante: alguém me odiava o suficiente para querer
me ferir. Recebi mais dois socos fortes, um deles no ombro, um golpe
forte que me jogou contra o lado do ônibus, enquanto eu ainda segurava
a mão de Justin. Os passageiros olhavam para mim e para Justin, mas
não se mexiam. Ninguém queria ajudar.

Gritei "me ajude, Justin". Então percebi que eu mal conseguia ouvi-lo.
As pessoas gritavam. Será que eu ouvira a palavra "kaffir" (infiel)?
Talvez não. Foi então que me arrastaram para longe de Justin.

Recebi mais dois golpes na cabeça, um de cada lado. O golpe seguinte
foi dado por um homem que eu vi carregando uma pedra grande na mão
direita. Ele bateu a pedra contra minha testa com força tremenda, e
alguma coisa líquida e quente veio jorrando e bateu sobre meu rosto,
meus lábios e meu queixo. Me chutaram _nas costas, nas canelas, na
coxa direita. Outro adolescente agarrou minha bolsa outra vez, e eu me
vi segurando a alça. Olhei para cima e percebi que deveria haver uns 60
homens à minha frente, todos gritando. Foi estranho, mas o que senti
não foi medo, mas uma espécie de surpresa. Quer dizer que é assim que
acontece. Eu percebia que teria que reagir. Ou isso, racionei em meio
ao meu atordoamento, ou eu morreria.

A única coisa que me chocava era meu próprio senso de impotência
física, a crescente consciência do líquido que começava a me cobrir
inteiro. Acho que nunca antes vi tanto sangue. Por um instante, tive um
vislumbre de uma coisa horrível, um rosto de pesadelo _o meu_
refletido na janela do ônibus, ensanguentado, minhas mãos encharcadas
de sangue, como as de lady Macbeth, o sangue escorrendo por meu
suéter e a gola da minha cabeça, manchas dele aparecendo até nas
minhas calças.

Quanto mais eu sangrava, mais a multidão me batia. Pedras pequenas e
maiores começavam a atingir minha cabeça e meus ombros. De repente,
minha cabeça foi golpeada com pedras de cada lado, ao mesmo tempo
_não pedras atiradas, mas pedras nas palmas de homens que as usavam
para tentar rachar minha cabeça. Então um punho acertou um soco no
meu rosto, estilhaçando meus óculos, enquanto outra mão arrancava o
segundo par de óculos que levo pendurado no pescoço.

Acho que neste ponto devo agradecer ao Líbano. Passei 25 anos
cobrindo as guerras do Líbano, e os libaneses me ensinaram muitas e
muitas vezes como se faz para continuar vivo: tome uma decisão,
qualquer uma, mas nunca fique parado sem fazer nada.

Então puxei a bolsa de volta das mãos do rapaz que a estava
segurando. Ele deu um passo para trás. Depois me voltei para o homem
à minha direita, que segurava a pedra ensanguentada na mão, e lhe dei
um soco na boca. Eu não enxergava muita coisa _não apenas eu estava
míope, sem meus óculos, como também meus olhos estava recobertos
de uma névoa vermelha_, mas vi o homem tossir e um dente cair de sua
boca. Ele recuou para a rua. A multidão parou por um instante. Então
ataquei o outro homem, ainda agarrando minha bolsa sob um braço, e
lhe dei um soco no nariz. Ele urrou de raiva, e, de repente, tudo ficou
vermelho. Não acertei um soco em outro homem, depois acertei ainda
outro no rosto, e corri.

Eu estava no meio da rua novamente, mas não conseguia enxergar.
Tentei limpar os olhos com as mãos. Comecei a enxergar de novo, e
percebi que eu estava chorando, e que as lágrimas estavam lavando o
sangue de meus olhos. "O que foi que eu fiz?", eu repetia para mim
mesmo. Eu tinha socado e atacado refugiados afegãos, exatamente as
pessoas sobre as quais vinha escrevendo havia tanto tempo, as pessoas
mutiladas e miseráveis que meu próprio país _entre outros_ estava
matando, juntamente com o Taleban, logo do outro lado da fronteira. 

Nesse momento aconteceu uma coisa espantosa. Um homem se
aproximou de mim, com muita calma, e me pegou pelo braço. Eu não
conseguia vê-lo muito bem por causa do sangue que enchia meus olhos,
mas vi que ele usava uma espécie de veste e um turbante e tinha barba
grisalha, quase branca. Ele me conduziu para longe da multidão. Olhei
por cima do meu ombro. Havia uma centena de homens atrás de mim, e
algumas pedras bateram na rua, mas não tinham sido miradas contra
mim _imagino que para evitar atingir o estranho. Ele era como uma
figura do Velho Testamento ou de alguma história bíblica, o bom
samaritano, um muçulmano _um mulá do povoado, quem sabe_ que
tentava salvar minha vida.

Ele me empurrou para dentro da traseira de uma caminhonete da
polícia. Mas os policiais não se mexiam. Estavam apavorados. "Me
ajudem!", gritei pela janelinha dos fundos da cabine da viatura, minhas
mãos manchando o vidro de sangue. Eles avançaram alguns metros, aí
pararam. O homem alto falou com eles outra vez. Andaram mais 300
metros.

E ali, ao lado da rua, havia um comboio da Cruz Vermelha-Crescente
Vermelho. A multidão ainda nos perseguia. Mas dois dos atendentes
médicos me puxaram para trás de um de seus veículos, jogaram água
sobre minha cabeça e meu rosto e enfaixaram minha cabeça. "Deite no
chão e nós lhe cobriremos com um cobertor, para que não o vejam",
disse um deles. Os dois eram muçulmanos bengaleses, e quero registrar
seus nomes porque eles eram homens corajosos e bons: Mohamed
Abdul Halim e Sikder Mokaddes Ahmed. 

Minutos mais tarde, Justin chegou. Ele tinha sido protegido por um
soldado grandão dos Levis do Baluquistão _um verdadeiro fantasma
remanescente do Império Britânico, que, com um único fuzil, mantivera
a multidão afastada do carro em que Justin agora estava sentado. 

"Não pegaram minha bolsa", eu repetia para mim mesmo, como se meu
passaporte e meus cartões de crédito fossem uma espécie de Santo
Graal. Mas pegaram até mesmo meu último óculos sobressalente, sem
os quais fico cego, meu celular e meu caderno de contatos, contendo 25
anos de números de telefone acumulados em todo o Oriente Médio.

Passei mais de duas décadas e meia relatando a humilhação e a miséria
do mundo muçulmano, e agora a revolta dele abarcou também a mim.
Ou será que sim? Afinal, havia Mohamed e Sikder, do Crescente
Vermelho, Fayyaz, que voltou para o carro, ofegando e furioso diante
do que acontecera, e Amanullah, que nos convidou para sua casa para
recebermos tratamento médico. Sem falar no santo muçulmano que me
resgatara.

E, percebi, havia todos aqueles rapazes e homens afegãos que me
atacaram e que não deveriam tê-lo feito, mas cuja brutalidade é
inteiramente produto da ação de outros, da nossa _nós, que armamos
sua luta contra os russos, que ignoramos sua dor, que zombamos de sua
guerra civil e depois os armamos e pagamos para lutar na "Guerra pela
Civilização", a poucos quilômetros de distância, e então bombardeamos
suas casas, massacramos suas famílias e chamamos a isso de "danos
colaterais".

Então pensei que eu deveria escrever sobre o que aconteceu conosco
nesse incidente temível, tolo, sangrento, pequeno. Temi que outras
versões pudessem resultar numa narrativa diferente, numa história de
como um jornalista britânico "foi espancado por uma turba de
refugiados afegãos".

E é esse o xis da questão, é claro. Os agredidos foram os afegãos. As
cicatrizes foram infligidas por nós, pelos aviões B-52, e não por eles. E
torno a repetir: se eu fosse um refugiado afegão em Kila Abdullah, eu
teria feito exatamente o que eles fizeram. Teria atacado Robert Fisk _ou
qualquer outro ocidental que encontrasse pela frente.

=====
"Sperto ne estas tio kio okazis al vi; sed kion vi faris el tio kio okazis al vi."
"Experiência não é o que aconteceu com você; mas o que você fez com o que lhe aconteceu."
(Aldous Huxley)

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Se voce nao deseja mais receber estas msgs peca, por favor, REMOVA-ME! (Se vi NE volas akcepti chi mensaghon, Petu, bonvolu TRANSLOKU MIM!)

Repassando...

Assunto:     Acontecimentos Estranhos...
Data:   07/12/01 17:43:32 Hor. de verão leste da Am. Sul
From:   marcelothrash@bol.com.br (Marcelo - NRLAP)
To: marcelothrash@bol.com.br (Resistência Anarquista)

Olá pessoal,
já é notado que ações anti-capitalistas e manifestações têm se fortalecido

nos últimos tempos e, como conseqüência, a perseguição aos movimentos de 
anarquistas, punks, libertários, enfim, ativistas e simpatizantes em
geral, 
tem aumentado. O que era parcialmente desconhecido por nós é que de fato 
está havendo uma organização governamental oficial de investigação e
espionagem a  estes grupos. O órgão chama-se GRADI (órgão da segurança
pública de SP).

Com essa descoberta, vinda através de fontes confiáveis (que preferem não 
serem identificadas), pode-se relacionar os acontecimentos que vêm sido 
freqüentes, como os infiltrados em manifestações e os policiais 
"disfarçados" que estão comparecendo a eventos, em ambos os casos tirando
foto do rosto das pessoas, alegando que as fotos serão utilizadas "para
arquivos".

O que podemos fazer é repassar essa mensagem para que nossos companheiros 
tenham conhecimento não só sobre o fato de estarmos sendo vigiados, que 
não é novidade, mas também para estarem alertas com possíveis aproximações

falsamente amigáveis de supostos jornalistas, transeuntes ou mesmo 
curiosos, com perguntas suspeitas e indiscretas, perceptivelmente buscando

informações pessoais de determinados indivíduos, movimentos, reuniões,
núcleos e afins.

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"Sperto ne estas tio kio okazis al vi; sed kion vi faris el tio kio okazis al vi."
"Experiência não é o que aconteceu com você; mas o que você fez com o que lhe aconteceu."
(Aldous Huxley)

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