EUA representam uma "ameaça para a segurança mundial", diz José Saramago

RIO DE JANEIRO, 10 Maio (AFP) - Os Estados Unidos são a principal ameaça à segurança mundial na atualidade porque as grandes corporações parecem ter chegado finalmente ao poder, disse o prêmio Nobel de Literatura de 1998, o português José Saramago, em entrevista publicada neste sábado pelo jornal O Globo.

"Definitivamente, não há mais dúvidas: a ameaça para a segurança mundial está hoje nos Estados Unidos", disse o premiado escritor e ensaísta, baseando-se nos argumentos levantados pelos Estados Unidos para justificar a guerra contra o Iraque.

"Essa guerra não se justifica porque não se provou nenhuma das acusações feitas ao Iraque. E não vale dizer que os Estados Unidos interferiram para acabar com um tirano, porque não interferiu em muitos países onde foi responsável por colocar tiranos no poder. Então, vamos acabar com essa hipocrisia", disse.

Saramago lembrou uma frase pronunciada em 2000 pelo escritor americano Normal Mailer: "Bill Clinton será o último presidente dos Estados Unidos. Porque de agora em diante as corporações já não precisarão de intermediários políticos".

Segundo Saramago, efetivamente "Clinton foi o último presidente. Quando vemos o atual vice-presidente Dick Cheney com interesses comerciais na exploração do petróleo do Iraque... É algo terrível".

O prêmio Nobel de literatura de 1998 afirmou que "todos sabemos muito bem que os Estados Unidos precisam do petróleo do Iraque. E isso não é tudo. É o controle de todo o Oriente Médio".

Há duas semanas, Saramago publicou um artigo onde declarou sua ruptura com o regime do presidente cubano Fidel Castro e disse que teria assinado o manifesto que um grupo de intelectuais fez circular com críticas à "retórica agressiva" dos EUA contra Cuba.

"Não assinei esse manifesto porque estava viajando. Ou porque ninguém se deu ao trabalho de me procurar. Mas eu assinaria esse documento. É que os EUA vêem a América Latina como seu quintal. Quem condena um ato em Cuba necessariamente tem de apoiar os EUA? Obviamente não", expressou.

Na entrevista, Saramago definiu-se como "um comunista hormonal, desses hormônios que nos homens fazem a barba crescer. Andam dizendo por aí que sou um comunista libertário. Isso soa bonito".


notícias do UOL de 10/05/2003