Fome Zero
Guerra do Brasil contra a fome começa de forma arrastada



Larry Rohter


BRASÍLIA, Brasil - Um dia depois de ser eleito presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que a principal prioridade de seu governo seria garantir que todo brasileiro pudesse fazer três refeições por dia. Mas cinco meses depois de ter alertado que "os famintos estão com pressa" e prometido ajuda imediata, seu programa "Fome Zero" tem gerado mais controvérsias do que resultados.

Os motivos para o atraso, dizem os críticos, variam da falta de experiência administrativa do novo governo até um demorado debate filosófico que retardou o início do programa. A ajuda deve ser entregue como cartões de alimento, transferência de dinheiro ou entrega de alimentos? Recibos devem ser exigidos? Deve haver um cardápio nacional único ou variações regionais?

"A sociedade está mobilizada para interromper o círculo vicioso da pobreza e da fome", reconheceu José Graziano, chefe do novo Ministério da Segurança Alimentar do governo, em uma entrevista aqui. "Há uma grande dose de expectativa, e nós estamos tendo dificuldade de atendê-la".

O apoio popular ao programa é de fato impressionantemente forte, com bairros ricos organizando campanhas de doações e grandes empresas oferecendo publicidade gratuita, linhas telefônicas e outros serviços. Mas quando os jornais divulgaram recentemente que um cheque de R$ 50 mil da modelo brasileira Gisele Bündchen, doado após ela aparecer em uma semana de moda em janeiro, ainda não tinha sido descontado, o programa passou a ser atacado.

"Burocracia 10, Fome 0", dizia uma manchete. Outro jornal deu para sua reportagem o título de "Amadorismo 1, Fome 0".

Até o momento, apenas duas cidades no remoto interior semi-árido, Guaribas e Acauã, no estado do Piauí, estão participando de uma versão piloto do programa, que conta com um orçamento de pouco mais de US$ 500 milhões para este ano. Até a metade do ano, previu Graziano, pelo menos 150 cidades estarão participando do programa, e com o número chegando a 1.000 até o final do ano.

Mas os moradores de uma cidade escolhida disseram que realmente precisam de água, não comida. Eles também reclamaram que foram autorizados apenas a gastar o valor mensal em alimentos básicos, não em remédios, roupas, material escolar ou outros itens que podem precisar mais.

"Nós estamos começando com estas medidas que exigem menor investimento", disse Graziano. "Mas este é um programa de longo prazo, com mais de 60 elementos", que variam de orientação nutricional para mães solteiras até instalação de caixas-d'água nos telhados das casas nas áreas rurais.

Mas o governo parece incerto de quantas pessoas eventualmente necessitarão do programa. Durante a campanha, Lula falou em mais de 50 milhões de brasileiros famintos, entre uma população de 176 milhões. Mas após ser eleito, alguns de seus conselheiros começaram a usar o número mais modesto defendido pelo serviço de estatística do governo, cerca de 18 milhões de pessoas.

Parte da confusão pode ser lingüística. Os brasileiros costumam usar uma única palavra, "fome", para se referir a vários estados de má alimentação. Também não se sabe se os beneficiários potenciais estão passando fome ou simplesmente informando baixa renda, uma distinção importante em um país em que milhões vivem de agricultura de subsistência.

A ajuda para as famílias com fome também foi reduzida, refletindo as medidas de austeridade que Lula foi forçado a implementar como parte do acordo com o Fundo Monetário Internacional. No rastro da campanha, ele falou em ajuda de até R$ 240 por mês, mas o esforço Fome Zero ficará, pelo menos inicialmente, limitado a uma ajuda de R$ 50 mensais.

Diante dos atrasos, Zilda Arns, diretora do mais bem-sucedido programa de assistência social para crianças necessitadas do Brasil, afiliado à Igreja Católica Romana, alertou recentemente que o governo "não deve tentar reinventar a roda". Apesar de ser "natural as pessoas quererem apresentar suas próprias idéias e inovar", disse ela, "o bom administrador sabe olhar para o que já está funcionando".

Mas as autoridades responsáveis pelo programa Fome Zero criticam os esforços do governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, que em dezembro foi elogiado pelas Nações Unidas. Apesar do ministro da Educação, Cristovam Buarque. ter sugerido o uso do programa de freqüência escolar existente para ministrar os benefícios de alimentos, o Ministério da Segurança Alimentar argumenta que este plano e outros como ele são falhos.

"O registro oficial não é confiável", disse Carlos Alberto Libânio Christo, um frade dominicano (frei Betto) e alto conselheiro de Lula que participa da coordenação do programa Fome Zero. Há pessoas registradas que não precisam receber ajuda e pessoas não listadas que precisam, disse ele.

Antes de Fernando Henrique Cardoso assumir o poder em 1995, "o Brasil provavelmente possuía três dúzias de programas para fome e nutrição, que geralmente eram pouco mais que patronagem política, mal administrados e coordenados, com muito desperdício e incompetência", disse Nancy Birdsall, do Centro para o Desenvolvimento Global em Washington, que monitorava programas sociais no Brasil para o Banco Mundial. "Mas eu acho que muito foi arrumado no governo Cardoso".

O frei Betto disse que o Fome Zero evitará a volta da patronagem política canalizando a ajuda diretamente para os necessitados, em vez de ela passar pelas autoridades locais. Mas em algumas áreas, prefeitos da oposição estão ameaçando não participar do programa, argumentando que a nova estrutura, que inclui conselhos locais de supervisão, visa promover os interesses dos deputados federais e estaduais que pertencem ao Partido dos Trabalhadores de Lula.

"Um ministério não é o caminho certo" porque "você cria mais uma estrutura e não resolve nada", alertou recentemente Mauro Morelli, um bispo católico há muito tempo envolvido nos esforços contra a fome. "Sem uma parceria com a sociedade", disse ele, "o governo encontra dificuldade para escapar de duas coisas terríveis: a burocracia e a corrupção".


Tradução: George El Khouri Andolfato


publicado no The New York Times em 30 de Março de 2003

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