Caros amigos:

Transcrevo oportuno artigo do escritor João Ubaldo Ribeiro (publicado na edição de hoje de
"O Globo") sobre a preconceituosa declaração do ministro José Graziano, coordenador do
programa assistencialista Fome Zero: "Se eles (os retirantes) continuarem vindo para cá,
vamos ter de continuar andando em carros blindados".

Grato pela atenção,
Carlos Aranha
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Que ministro é esse?
JOÃO UBALDO RIBEIRO

Foi com enorme espanto que li nos jornais a afirmação do ministro da Segurança Alimentar da qual se infere que ele pensa serem os nordestinos responsáveis pela violência nos grandes centros urbanos. Mais tarde, o ministro tentou esclarecer seu pensamento, mas nada apaga a sensação de que ele disse aquilo que, no fundo, é a deplorável convicção de um membro do primeiro escalão de um governo ironicamente presidido por um ex-retirante nordestino. Levando o raciocínio dele às últimas conseqüências, deduziremos que o Piauí, por exemplo, não passa de um berçário de bandidos e que as ações do governo (“nós”, segundo ele) são motivadas não por civismo ou responsabilidade social, mas por medo de que “eles” (os retirantes) façam chegar às grandes cidades exércitos delinqüentes de todo tipo. Soa, assim, esse ministro, como uma espécie de porta-voz qualificado dos skinheads, os quais, como se sabe, vêem os nordestinos (e também judeus, entre outras categorias) como inimigos da boa ordem social.

Não há espaço para comentar aqui a estupidez e a arrogância desse tipo de pensamento. Para os que já nutrem preconceitos, esse ministro aparece como uma fonte de legitimação. É o poder falando e o poder diz que precisa dar de comer aos nordestinos para que os nordestinos permaneçam em seu lugar, reduzidos a sua inferioridade física, intelectual e moral. No mesmo dia em que os jornais deram a notícia, tive a oportunidade de ouvir como várias pessoas agora se sentem à vontade para dar voz ao preconceito e mesmo ao ódio, pois que um ministro, um insuspeito homem de esquerda, o que lá seja isso, pensa assim.

Onde tem vivido esse “homem de esquerda”, que horizontes culturais vislumbra, que senso de responsabilidade o norteia? Que ministro é esse, que começa a celebrizar-se por besteiras, numa encarnação que seria engraçada se não fosse terrível, da Magda e da Ofélia da televisão? É esse homem, que não sabe se expressar ou conter suas idéias íntimas para seu próprio consumo e dos que pensam como ele, um dos nossos governantes? A esta altura do século 21, é o governo de um Estado que se pretende modernizar e se desenvolver que faz proliferar a cisão, a desconfiança, o ressentimento e a ignorância?

O Nordeste não são “eles”, somos nós todos, os brasileiros. Será que agora, com ministros desse quilate desastrado e asnático, vamos ressuscitar bairrismos estéreis, disputas regionais ridículas e, para repetir o que não pode deixar de ser repetido, ódios infundados? O objetivo é dividir, hierarquizar e mesmo hostilizar? Há um governo “para nós” e um governo “para eles”? São os nordestinos os traficantes, os assaltantes, os grandes consumidores de drogas caras como a cocaína? É assim que o governo vê o Nordeste?

Não, certamente, não é assim. Mas pronunciamentos desse tipo, por irresponsáveis, inconseqüentes, destrutivos, insultuosos, humilhantes e sob todos os títulos reprováveis, não podem passar sem troco. E não vão passar. Em qualquer país decente, esse ministro inconcebível já teria pedido desculpas a tão grande parcela do povo de que é governante e presumido servidor. E já teria sofrido uma séria repreensão de seu superior. Finalmente, uma coisa é certa: descarado ou puxa-saco será o nordestino que festejar esse ministro - o ministro que é de alguns e nunca de nós todos. Chega de agüentarmos calados a burrice, a insensibilidade e a agressão institucionalizada. De minha parte, não vou agüentar calado.


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