|
Há algum setor das forças militares norte-americanas que passou a odiar a imprensa e quer tirar do caminho jornalistas que estejam em Bagdá? |
Primeiro mísseis americanos atingiram o correspondente da Al Jazeera e seu
cinegrafista. Depois -num intervalo de quatro horas- os EUA atacaram o escritório
da Reuters, em Bagdá, e atingiram um de seus câmeras, pai de uma criança de
oito anos, além de outros integrantes da equipe e um cinegrafista do canal
espanhol Telecinco.
É possível acreditar que isso tenha sido um acidente? Ou é possível que a
palavra certa para as mortes decorrentes desses ataques seja assassinato?
Não são, obviamente, as primeiras mortes de jornalistas na invasão
anglo-americana do Iraque. Tampouco podemos nos esquecer dos civis iraquianos
que estão sendo mortos e mutilados às centenas e que -diferentemente dos
convidados jornalistas- não podem deixar o país e voar para casa de classe
executiva.
Ou seja que os fatos de ontem devem falar por si. Infelizmente para os
americanos, tudo o que aconteceu se parece muito com assassinato.
Vejamos o míssil que atingiu a sede da Al Jazeera às margens do rio Tigre. O
correspondente da rede de televisão, um jordaniano-palestino chamado Tareq
Ayyoub, estava no topo do prédio com seu segundo cinegrafista, um iraquiano
chamado Zuheir, registrando uma batalha que ocorria entre tropas
norte-americanas e iraquianas.
Como Maher Abdullah, colega de Ayyoub, contaria mais tarde, "o avião voava
tão baixo que pensávamos que pousaria no topo do prédio. Foi um ataque direto
-o míssil chegou a explodir contra o nosso gerador".
Agora resta aos americanos o problema de explicar isso. Em 2001, os Estados
Unidos atingiram com um míssil o escritório da Al Jazeera em Cabul, no
Afeganistão -de onde vídeos de Osama bin Laden ganharam exibição para todo o
mundo. Explicações nunca foram dadas.
Mais perturbador, no entanto, é o fato de que a Al Jazeera -a rede de televisão
árabe independente, que conseguiu despertar a fúria de autoridades
norte-americanas e iraquianas por sua cobertura ao vivo da guerra- havia
informado ao Pentágono as coordenadas de seu escritório em Bagdá há dois
meses e recebeu a garantia de que o local não seria atingido.
O ataque seguinte veio logo depois, quando um tanque Abrams apontou seu canhão
em direção ao hotel Palestine, onde jornalistas estrangeiros estão hospedados
na capital iraquiana.
A munição explodiu entre a equipe da agência de notícias Reuters e atingiu o
cinegrafista ucraniano Taras Protsyuk, o britânico Paul Pasquale e dois outros
jornalistas, incluindo a repórter libanesa-palestina Samia Nakhoul, além de
José Couso, do canal espanhol Telecinco.
Os americanos se justificam com o que todas as evidências provam ser uma clara
mentira. O general Bufford Blount, da 3ª Divisão de Infantaria, afirmou que
seus veículos estavam sob fogo de francos-atiradores instalados no hotel
Palestine.
O testemunho do general não é verdadeiro. Eu estava passando por uma rua entre
os tanques e o hotel no momento em que ele foi atingido -e não havia nenhum
tiroteio.
Algo de muito perigoso parece haver pairado ontem. Há alguma lição que os
jornalistas devem reter disso? Há algum setor das forças militares
norte-americanas que passou a odiar a imprensa e quer tirar do caminho
jornalistas em Bagdá, ferindo aqueles a quem nosso próprio (britânico)
ministro do Interior, David Blunkett, maliciosamente afirmou estar trabalhando
"atrás das linhas inimigas"?
Eu conheci Tareq Ayyoub. Disse-lhe o quão fácil esse escritório de Bagdá
seria, como alvo, para os americanos, se eles quisessem destruir a cobertura que
faziam -vista em todo o mundo árabe-, com imagens das vítimas civis dos
bombardeios.
Taras Protsyuk dividia por vezes o elevador inacreditavelmente lento do hotel
Palestine comigo. Samia, aos 42 anos, é uma amiga desde a guerra civil libanesa
entre 1975 e 1990. Ontem à tarde, estava coberta de sangue, num hospital de
Bagdá.
E o general Blount insinua que essa mulher e seus bravos colegas eram
francos-atiradores. O que isso, me pergunto, nos diz sobre a guerra no Iraque?
Folha Mundo - 09/04/2003