Tênis x Frescobol    (Rubem Alves, do livro "O retorno eterno")

 

Depois de muito meditar sobre o assunto conclui que os casamentos são de dois tipos: Há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol.

 

Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal; Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e tem chance de ter vida longa. Explico-me.

 

O tênis e um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário.  E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar.  O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para ali quem ele vai dirigir a sua cortada, palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza do outro.

 

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolve-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pega-la. Não existe adversário porque não ha ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra, pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas e quem provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos.

 

A bola são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar e ficar batendo sonho prá lá, sonho prá ca.

 

Mas ha casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam a espera do momento certo para a cortada. Cena: o marido, a mulher, a galera. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silencio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão como se dissesse “tens razão, minha querida".  A situação esta salva e o ódio vai aumentando. Tênis é assim : recebe-se o sonho do outro para destrui-lo, arrebenta-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

 

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem, cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem.

 

E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...


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