TVs árabes transmitem versão diferente da guerra
16h58 - 22/03/2003
Silvia Salek, enviada especial ao Cairo
Enquanto o exército americano afirmava ter conseguido importantes vitórias em
solo iraquiano, o canal de TV libanês Al Manar dizia, neste sábado, que as forças
dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha estavam retrocedendo no sul país,
"humilhadas pela forte resistência do povo iraquiano".
"É uma verdadeira guerra de informação, mas tendo a acreditar nos canais
árabes, que têm contatos nessas cidades e podem confirmar as informações. A
imprensa estrangeira acredita em tudo o que o governo americano diz",
afirmou à BBC Brasil o engenheiro aposentado Fouad Abdel Rahman, de 60 anos.
Ele acompanhava as notícias pelo Al Manar, um canal controlado pelo Hezbollah,
uma organização que defende o fim do Estado de Israel e a implantação de uma
república islâmica no Líbano.
O canal, que transmite em árabe e em inglês, dizia que as "tropas
invasoras" foram expulsas das cidades de Nasiriya, Basra e Faw. Segundo o
canal Al Manar, testemunhas teriam visto um grupo de soldados americanos
correndo de iraquianos em Basra.
"Farsa"
O engenheiro egípcio acompanhava as últimas notícias sobre a guerra ao lado
da esposa, mudando de canal a todo momento.
"Prefiro a TV árabe porque ela reflete bem o sentimento do povo da região.
Os canais estrangeiros querem ser imparciais, mas, no fundo, não são",
disse Fouad, enquanto via pela TV Al Jazeera um grupo de iraquianos - crianças,
adultos e idosos - cantando que lutariam até a morte para defender o presidente
iraquiano, Saddam Hussein.
"Você não vê isso nos canais americanos ou nos canais do Kuwait, por
exemplo. Os canais americanos botam sempre os correspondentes e quase nunca
pessoas normais (na tela)", acrescentou a esposa de Fouad, Soheir Mohammed,
de 49 anos.
Segundo o aposentado, as imagens transmitidas ao longo desta semana pelos canais
estrangeiros de um suposto soldado iraquiano com uma bandeira branca se rendendo
a tropas americanas não passam de "uma farsa".
"Aquilo era um vídeo de treinamento, divulgado para diminuir as esperanças
do povo iraquiano", disse o egípcio, que pagou mil libras egípcias (cerca
de R$ 625,00) para ter acesso a mais de 50 canais árabes.
"Exército inimigo"
A maioria desses canais dedica boa parte da cobertura ao drama humano das vítimas
da guerra do lado iraquiano.
Na tarde deste sábado, ao mesmo tempo em que as redes de TV ocidentais
mostravam imagens de Bagdá sendo atacada, com comentários de analistas e
correspondentes, a maioria dos canais árabes intercalava essas imagens com
cenas de crianças e adultos iraquianos supostamente feridos pelos bombardeios.
A Al Jazeera mostrava também, neste sábado, imagens de iraquianos supostamente
mortos nos bombardeios sem poupar o telespectador de detalhes - como imagens do
torso de uma vítima ou close ups de homens mortos.
"A imprensa árabe dá mais destaque às conseqüências humanas da guerra,
enquanto a mídia estrangeira dá muito destaque aos números e à parte logística",
disse o jornalista da Somália Yussuf Mohammed, que está acompanhando o
conflito do Cairo.
A diferença entre as duas coberturas não se restringe às imagens e ao foco
das reportagens, mas também às expressões usadas para descrever a guerra.
Enquanto canais não-árabes chamam as forças americanas e britânicas de
"coalizão" ou "aliados", canais como o Al Manar falam em
"tropas invasoras" ou "exército inimigo".
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